terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O escritor

De suas ruínas, o suntuoso vocábulo ressoa a leveza do vento quando toca as rabiolas suspensas ao ar.


Como abandonar uma história sem deixar parte de si ao gozo do esquecimento. Não poderia escurecer o dia afim de não refletir seu rosto em minha mente. Apenas, com a neblina, deixar a visão turva e o coração perdido.
Mas estaria traindo a melhor parte de mim.
Marco Villena, o escritor boliviano mais belo que conheci. Seus escorridos cabelos negros, seus olhos repuxados, sua boca, seu pecado.
Marco não era falador. Contido em suas poucas palavras, era sempre belo ouvi-lo. Vê-lo.
É constrangedor imaginar que tal ser humano não era replicado em número suficiente para ser distribuído aos corações ausentes de um homem como o meu escritor.
Não o resumo à beleza que lhe era perfeitamente esculpida pela vaidade que com o molde de seu corpo jurou atingir a perfeição, mas sim às suas idéias que revolucionam vidas.
Certa vez, enquanto embebedávamos para por fim cedermos à carne, Marco me confidenciou o que, na visão dele, era ser escritor.
“Eu não sou um artista. Artista são filhos da vaidade, reféns de sua própria arte. Escritores não são artistas. Aqueles que dizem o contrário provavelmente não desfrutam da verdadeira vocação de se procriar histórias.
Então quem somos nós, os escritores? Nós somos o próprio deus em todo o seu poderio.”
Marco morreu de câncer aos vinte e três anos sem nunca ter publicado nenhum dos seus doze manuscritos. Como último desejo, ele pediu a sua esposa porto riquenha, de quem agora não me recordo o nome, que queimasse toda a sua obra.
Como amante, não tive nenhum poder sobre os textos que arderam em chamas, mas segundo o seu autor: a minha mortalidade demarca o fim da minha obra. Ainda que ela viva imortalmente, eu para sempre serei uma breve expressão daquilo que está contido ali.

4 comentários:

M.M.Soriano disse...

Sublimes... Sublimaram-me...
As letras são as víceras expostas do literautor...

Salut!

Ricardo Novais disse...

Maravilhoso conto! Tem uma sutileza no enredo que lembra alguns dos textos mais belos do Jorge Amado; mas voltado para o seu próprio estilo.

Gostei muito do texto!

Um grande abraço de um leitor que admira todos os seus escritos, querida amiga deste Cabaret.

Carlos disse...

Sou suspeito pra falar porque sou fã de tudo que você escreve, mas esse texto está realmente inigualável, incomparável. Parabéns

Anônimo disse...

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