segunda-feira, 1 de março de 2010

O artista

A indústria do rabisco confecciona a arte.
Já estou acostumada a ver cabeças reclinadas sobre o balcão do cabaret.
Uns culpam o vinho, outros a solidão. Há vários motivos que levam um homem às doses que afugentam a sobriedade e os inspiram a um discurso incompreensível, de idéias tortas.
Em uma dessas noites, em que o balcão se expande sob braços, copos e mágoas, reconheci, entre olhares imersos na direção do pensamento, Rogério Siqueira.
Artista plástico baiano, Rogério manteve seus traços voltados ao clássico. Em uma de suas entrevistas em que foi perguntado sobre arte contemporânea, assim respondeu Rogério:
“a arte sempre foi o refúgio dos olhos, arquitetura dos traços que implicam diretamente na visão humana. A obra cumpre seu papel quando atenta contra a soberania do homem. Quando um observador contempla uma obra ele é guiado pela composição orquestrada pelo artista. Este caminho, por sua vez, absorve o observador a uma realidade próxima, pulsante. Ao ver um corpo condenado a eterna inércia do último movimento, o observado consegue projetar toda a extensão do movimento ainda que não executado. Reconhece os elementos que formam o cenário. O observador consegue sentir a pulsação, ele é capaz de jurar que a obra também o observou. Esta é a função da arte. O aparente torna-se real ao ponto da soberania ser confrontada por uma obra de arte. A arte contemporânea deturpou este conceito. Marginalizou a experiência ao culto da efêmera exposição da abstração, quando na verdade a abstração dos traços foi o refúgio da incapacidade artística. A desculpa pela múltipla experiência só deu plenos poderes à soberania do homem. O homem como único observador de uma arte incompreensível que legitima a qualquer discurso uma possível explicação para um borrão de tinta...”
Espantou-me ver Rogério naquela situação. Fiquei inquieta e só sosseguei quando fui falar com ele.
Próxima. Clamei sua atenção com um toque em seu ombro.
Cambaleante, Rogério ergueu o tronco, esfregou os olhos e me dirigiu o olhar.
Rogério não me conhecia, por isso, tratei de me apresentar.
Passados os primeiros cumprimentos. Convidei Rogério para subir comigo para um dos quartos. Não se tratava da oferta do sexo. O convite só tinha como interesse a conversa.
No quarto, não engasguei a dúvida. Minhas primeiras palavras buscaram saber o porquê de um homem - mais que um homem - um artista como ele se entorpecia com a bebida de forma deteriorante.
Rogério sorriu e me disse que bebia para confrontar com um “eu alcoólico”.
Quis logo saber em que isso o ajudaria.
Ele me garantiu que a bebida exorcizava seus sentidos da moralidade que os aprisionavam, com isso, suas idéias eram recicladas e ordenadas para desaparecerem a cada gole. Mas isso não era garantia de extinção das idéias, apenas, a sublimação da idéia.
Então perguntei sobre as idéias que com o sutil gesto do ilusionista desaparecem mais não deixam de existir, voltam todas ao final da mágica.
Em sua confissão não faltaram algumas lágrimas:
“Eu bebo pelo cadáver que não produz mais história. Pelo corpo velado. Pela arte sepultada. Fecharam mais uma galeria de arte por falência. Mais um artista morto, mais um homem ocioso na conformidade das idéias prontas. E o que sobra para as gerações futuras? Recortes do passado. Os resumos são os únicos objetos de estudo que os jovens de hoje estão habilitados a empreender. A memória picotada é o esquecimento do contexto, o congestionamento do aprendizado fracionado que resulta na morte da experiência necessária para expressar a vida. Hoje enterro a minha condição de artista é a enterro bem ao lado de seu progenitor, a arte.”
Posso garantir. As lágrimas que Rogério derramou definitivamente não eram de dor ou culpa, mas sim de pena do que esta juventude se tornou.

2 comentários:

Ricardo Novais disse...

Faz bem o artista Rogério, está tudo perdido mesmo. Não vejo criatividade alguma nesta humanidade positiva de ordenamento podador da autenticidade e de progresso medíocre.

Lembrando das ideias daquele escritor russo, adapto-a a este pensamento: - Melhor morrer de uísque do que de falta de criatividade.

Lidi disse...

No fim todos precisamos achar algum meio de "escapar" de vez em quando, seja como Rogério, indo de encontro a um "eu alcoólico" brindando de certa forma um lado não tão bom, sublimando, simbolizando aquilo que deveria ser diferente... seja de outra forma, cada um deve achar a sua... ou fica difícil encarar e enfrentar certas coisas que nos indignam ou aprisionam!
Post fantástico!